domingo, 5 de fevereiro de 2012


As Quatro Partes dos Homens Quebrados deste Século


1.A Identidade

Aquele homem escalou montanhas duras
e com uma delicadeza duvidosa tombou o cálice
(derramou o restante da dignidade que lhe restava.)
Talvez sejam os tempos. Os tempos, com certeza.

2.A Sexualidade

Aquele homem se move com uma pena tortuosa.
Entre vielas e esquinas apertadas o cão guia mostra
um caminho sem volta. Aperta seios muito mais
moles que os seios de sua esposa. Moles até demais.

3.O Machismo

Aquele homem tenta alcançar o pote de mel
Mas o pote de mel está no alto da prateleira.
Cadeira em cima de cadeira, sente-se um Deus.
E quando ora, ora para não cair do céu.

4.A Espiritualidade

Aquele homem ouve a palavra do Pai
mas a palavra do Pai lhe é vazia.
Os tempos mudaram, é verdade.
Então talvez sejam os homens;
(os homens, com certeza.)

terça-feira, 22 de novembro de 2011


Curitiba 1896

algumas canções deveriam ficar apenas nos botequins
algumas garotas deveriam ficar apenas nos botequins
onde a poeira dos ratos caem nos copos colocados
enquanto correm pelo forro do teto sem reforma.

"issaqui tem gosto de merda", reclama um piá de bigode ajeitado
o garçom tenta explicar, mas trabalha ali há mais de 120 anos
e está tão cansado que deseja explodir o bandolim, que não para.
tão branca uma garota meio abismada com a vida troca de copo com o piá.

ela começa a sambar com uns passos meio gringos, mas faz bonito
os ratos observam, tristes, de uma fresta estreita no último tijolo;
um periquito de cores tropicais enfeita a entrada do botequim.
O balão que saiu da Itália sobrevoa, a negra da janela chora.

(Ricardo Chagas)


domingo, 13 de novembro de 2011




Estômago Vazio: Um bocado de Charutos Caros, Três Taças de Vinho do Porto para Ela, Três Copos de alguma India Pale Ale para Mim

parecendo uma Luísa velha, aparecestes novamente
com a bunda mais linda que da última vez
e com os dentes da frente separados.

tantas as ocasiões em que me acolhi no teu peito vazio
viestes em diferentes formas e nomes
mas o "ricardo" dito sempre foi minúsculo e provocante
como se em todas as vezes você estivesse pedindo por um pinto dentro de você.

um copo de cerveja laranja molha teu sorriso bonito,
bonito, tão bonito e simples como a própria palavra bonito.
indelicada é aquela que me ama e me suporta.
você é uma puta delicada, de essência feminina e vasta como os campos verdes da Irlanda.

a falta de inspiração me mata e você é, por essência, imbecil como ninguém (ou como quase todo mundo).
se queres mesmo saber, essa é a primeira vez em que a paixão termina antes do poema;
mas mesmo assim eu lhe devo este e alguns outros, pois há tempos estou bem para valer
(como eu odeio estar bem para valer! como os frios me fazem falta!)

é tarde da noite e estou esperando que você apareça magicamente em minha cama de viúvo
pois preciso enfiar a língua e o nariz em tua vagina semi-apertada
quero que você implore, chore, desobedeça minhas ordens e arranhe meus olhos
como se tivesses nascido para ser como uma espécie de amante cruel, desleal e suja
como se tivesses nascido para me ter, me engravidar ao contrário e sentir meus catarros escorrendo por suas pernas
seu buraco é tão lindo, Luísa, seu buraco é tão fundo que, se eu fosse me matar,
eu apenas colocaria o nariz dentro e esperaria.
(você poderia me ajudar dando uma mijada forte)

espero que você me faça e me assassine como no dia em que te conheci:
vagabunda fofa sussurrando em ouvido traiçoeiro.

(Ricardo Chagas)

quinta-feira, 6 de outubro de 2011


Heisenberg

seu sangue azul claro
(algo nitidamente cresce dentro de você)
talvez seja o temor,
(provavelmente é só o tumor)
apocalipse pessoal, sangue frio, suor:
a química de nada dar certo.
Deus trágico atrás de Deus sádico.

(Ricardo Chagas)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011



As Póteses Imáginarias de Marina Flávia (ou "Uma Cobra Chamada Zaphod")

1. Dois Peixes Híbridos: Uma Cobra

os dois últimos peixes foram tão apertados
(quem dera tivessem sido apertados pra valer...)
a vida é assim mesmo: lenta de ruínas.
quando o musismo sentimental ousa se tornar doente
é hora de repensar, mudar e parar com a masturbação.

2. Marina Flávia Beeblebrox

o nome composto mais subestimado da face da terra é Marina Flávia.
Soa bem e não chega a ser clichê. São dois nomes que eu costumava odiar,
mas hoje gosto por soarem muito bem juntos, como se fossem uma fase da vida
onde uma ducha muito muito forte é mais que necessária.

por onde andei, os matos delicadamente me ajudaram a esquecer da poesia,
tornando-me parte daquilo, deixando mudo e imundo meu cérebro lento
separando da vida o conceito da vida.

3. O "Se" da Mutação 

Se eu fosse tentar resumir, resumiria em prosa. Esse poema é só
o esboço de um raciocínio que eu preciso esquecer.
Se mulher ligasse pra poesia, os seios e a vagina deixariam de ser necessários;
a rima meio que compensa a falta de "tudo isso" em mim.

4. Desnecessária

Não sou sério como gostaria de ser.
Detesto poemas autobiográficos, mas, não consigo evitar.
Engulo vírgulas propositalmente por não saber respirar
(na verdade isso acontece só quando escrevo sem ter pingado Neosoro.)
A música celta me acalma em doses cavalares e a popular brasileira, quando chorosa,
me deixa com vontade de mudar de pátria.
O individualismo passou a ser coisa natural depois que inventaram esses chuveiros/duchas
tão fortes que dá até vontade de chorar enquanto tomamos banho.
Marina Flávia só ficaria legal em uma filha legal.
Uma filha de duas cabeça, quem sabe.

(Ricardo Chagas)

sábado, 23 de julho de 2011



Sexo de Laboratório e Carpintarias Desnecessárias

dentro da vida eu introduzo o pinto vezes três
não importa o resultado, "só o processo",
Dizem por aí.
luzes machucam minha pele semibronzeada
mas eu gozo mesmo assim:
acelero o carro com os vidros abertos na garagem fechada americana.


...
Não morro, não!
Transcendo como um inseto
Laboratório inútil que me roubou o padrão
Bipes serpentinas vozes botões proibidos.

o Diabo e jesus, das Minas Gerais.
Como aquelas estátuas me fazem falta!
o laboratório é tão cinza e heterogêneo que me faz querer morrer de verdade.
Se eu morresse de verdade, sentirias minha falta
ou continuaria nesse seu azul mundo exato bonito desejado e fodido de maneira tão gostosa?

(Ricardo Chagas)

terça-feira, 14 de junho de 2011


O Rei

Pressa ten ta d i vidi r as cois as
era cousa.
Come o pudim na casa da avó
Trabalha de lenhador no dia-a-dia
Foi criança mas já passou.

Já é Maio de 2067, meu filho.
Os olhos precisam fechar.

(Ricardo Chagas)